O vazio afetivo, imaginam na insanidade do seu egoísmo, pode ser preenchido com carros, boas mesadas e um celular para casos de emergência. Acuados pela desenvoltura anti-social dos seus filhos, recorrem ao salva-vidas da psicoterapia. E é aí que a coisa pode complicar.
A demissão do exercício da paternidade está na raiz do problema. A omissão da família está se traduzindo no assustador aumento da delinqüência infanto-juvenil e no comprometimento, talvez irreversível, de parcelas significativas da nova geração.
Fala-se de tudo. Menos da crise da família. Mas o nó está aí. Se não tivermos a firmeza de desatá-lo, assistiremos, acovardados e paralisados, a uma espiral de crueldade sem precedentes. É uma questão de tempo. Infelizmente.
A era do mundo do espetáculo, rigorosamente medida pelas oscilações do Ibope, tem na violência um de seus carros-chefes. A transgressão passou a ser a diversão mais rotineira de todas. A valorização do sucesso sem limites éticos, a apresentação de desvios comportamentais num clima de normalidade e a consagração da impunidade têm colaborado para o aparecimento de mauricinhos do crime. Apoiados numa manipulação do conceito de liberdade artística e de expressão, alguns programas de TV crescem à sombra da exploração das paixões humanas. Ao subestimar a influência perniciosa da violência ficcional, levam adolescentes ao delírio em shows de auditório que promovem uma grotesca sucessão de quadros desumanizadores e humilhantes. A guerra pela conquista de mercados passa por cima de quaisquer balizas éticas. Nos Estados Unidos, por exemplo, o marketing do entretenimento com conteúdo violento está apontando as baterias na direção do público infantil.
A psicoterapeuta observa que muitos adultos, hoje, são vítimas de um imenso vazio emocional. “E o que eles não sabem é que isso se deve à relação precária que vem desde o útero, passa pela amamentação e continua nas fases seguintes”, diz.
“Quando se está bem, a pessoa ama o tempo de silêncio e o estar só. E ama também quando este mesmo movimento de interiorização entra no ciclo de sair de si, encontrar o outro de si, dançar junto, amar. É quando ficar sozinho não é o mesmo que ficar solitário”, explica.
Na prática, o vazio emocional é uma depressão que vem de uma situação muito primitiva, um grande vazio interior.
As diferentes formas de compensação que a mídia e a sociedade oferecem não preenchem a sensação de solidão negra de não pertencer, de não fazer parte, de estarmos isolados. Esse é o caminho da desvitalização e da depressão. Somente quando assumimos que temos de encarar nosso vazio e nossa vida, sermos companheiros firmes, consistentes de nós mesmos encontraremos dentro de nós a força que precisamos para fazer este serviço.
Aí, sim, reconstruíremos a mãe que não tivemos porque ela não pode, não conseguiu ser. E o pai, a família que nos faltou. Nós temos que assumir esta responsabilidade de nos resgatar, de nos curar. Não adianta ficar culpando os outros, os pais. Isso aconteceu no passado. Agora você é adulto e isso significa parar de culpar o outro e cuidar e curar o bebê ferido que está aí dentro de você, carente e vulnerável.
Qual o papel da família neste contexto?
Maria de Melo - A família atual está em crise também. Os pais - ou por trabalharem demais ou por estarem, eles mesmos, pobres emocionalmente - não conseguem mais colocar limites saudáveis para a criança, ou os colocam de forma autoritária, violenta. No mais das vezes, não dão limites porque dá muito trabalho e não dá ibope. Ou seja, a mãe, que em geral, trabalha fora, quer ser “boazinha” e portanto é melhor não dizer não. O pai anda muito ausente, ocupando-se cada vez menos da família. Vão todos trabalhar e quem educa, afinal, são as mídias (televisão, rádio, internet). Os valores morais já não vêm da família e sim da mídia.
Diário - Quais as possíveis consequências disso?
Maria de Melo - A criança precisa da relação primeira da vida, com a mãe. Desta experiência ficam as sementes da relação a dois. A intimidade profunda, o contato primordial. Se o pai estiver presente e inteiro nesta fase inicial, gestação, amamentação, ele fica na função de proteger e dar campo para a díade mãe-bebe acontecer, e deixará também sua marca ao criar o campo família. Na fase seguinte, após a amamentação, a figura paterna é essencial para a criança entrar na dimensão da relação a três e demais pessoas.
Sem a relação íntima na família a criança não preenche sua necessidade profunda de intimidade, de contato. Torna-se uma pessoa superficial, incapaz de relações íntimas verdadeiras e profundas. Afinal, as diferentes mídias não oferecem a possibilidade de troca afetiva verdadeira.
É uma relação fria, de uma via só - a criança fica passiva, ali, ouve, sente, mas não tem respostas pessoais e únicas, que ela teria numa relação com a família. Não há trocas afetivas verdadeiras. Esta é, na essência, a causa do vazio interior. Uma família bem funcional e estruturada é a base de uma personalidade equilibrada, que permitirá chegar à maturidade afetiva, com a capacidade de amar, com o prazer de amar.
A sabedoria é o olhar inteligente que vê, entende, ama e transforma. Consciência é consciência de si mesmo, de quem - e do que - você é. De onde vem, para onde vai, da direção que está tomando, das escolhas, opções que está fazendo de fato, algo para além de si.
Você tem que viver isso, fazer você mesmo a experiência da intuição, da alma, de entrar em lugares dentro de você que nunca imaginou existir, acessar forças inimaginavelmente potentes. As pessoas hoje têm medo de si mesmas. Têm medo da vida interior.
É o vazio existencial, é a fome do divino, do espiritual.
Estas pessoas perderam o apetite em meio ao cardápio materialista e consumista que circula por aí. A agitação não mais é confundida com vibração de energia, vida, vitalidade. A vida fica sem sentido. Temos saudade da alma. Saudade de algo que, às vezes, nem se conhece, no nível superficial de nós. Mas lá, no fundo da alma, algo chama, chora, sedento, faminto. Muitas vezes tal angústia existencial é confundida com depressão, com aquelas feridas primitivas, buracos que precisam ser preenchidos.
Não é depressão. É fome de alma. É cansaço da futilidade total que toma conta da vida chamada moderna. O materialismo exacerbado tornou as pessoas seres sem alma. Estamos sedentos de contato verdadeiro consigo mesmo e com os outros, queremos saber (sentir o sabor) do que somos no mais profundo de nós, de nossa vida interior, da vida da alma.
O homem é mais do que organismo psicofísico; ele é pessoa espiritual.
O vazio existencial, na conceituação do psiquiatra vienense Viktor Frankl, surge em decorrência de uma falta de metas e objetivos que valham a pena serem perseguidos durante a existência - ou seja, o indivíduo carece de um conteúdo profundo pelo qual viver. Tal estado de vazio, amplia a angústia resultante de uma tensão entre o que se é e o que se deveria ser, entre o lugar em que se está e a meta que deve ser alcançada.
A busca por um sentido é a motivação primária na vida de qualquer criatura. Sempre que essa vontade de sentido está soterrada por uma vida ilusória, mesmo nas condições de riqueza e bem estar material absolutos, a pessoa passa a sentir uma angústia existencial dentro de si.
Milhares de pessoas, vivendo existências superficiais e sem conteúdo, tentam “calar” a falta de sentido de suas vidas através de festas ruidosas, pelos divertimentos intermináveis, esportes radicais, os quais sempre deixam uma sensação de insatisfação e a necessidade de nova busca de entretenimento e emoções fortes. Noutras vezes, essa vontade de sentido que necessita ser preenchida é compensada pela vontade de poder, através da tentativa de domínio de outras pessoas, ou em uma de suas formas mais primitivas, a ganância de acumular dinheiro.
O vazio existencial pode ser percebido com clareza nos finais de semana, quando o corre-corre do trabalho e das tarefas cessa, e o vazio dentro de homens e mulheres se torna manifesto, denunciando a inexistência de um conteúdo proundo em suas vidas. Sábados e Domingos se tornam insuportáveis, já aque no lugar de metas e aspirações nobres e plenificadoras, existe apenas o imediatismo carregado de ansiedade, a busca tormentosa de se desfrutar prazerosamente o aqui e agoraa qualquer preço. Acaba por predominar em inúmeras criaturas, dessa forma, uma sensação de vácuo interno, como esclarece Joanna de Ângelis, em “Conflitos Existenciais”(2005).
Fala-se de tudo. Menos da crise da família. Mas o nó está aí. Se não tivermos a firmeza de desatá-lo, assistiremos, acovardados e paralisados, a uma espiral de crueldade sem precedentes. É uma questão de tempo. Infelizmente.
A era do mundo do espetáculo, rigorosamente medida pelas oscilações do Ibope, tem na violência um de seus carros-chefes. A transgressão passou a ser a diversão mais rotineira de todas. A valorização do sucesso sem limites éticos, a apresentação de desvios comportamentais num clima de normalidade e a consagração da impunidade têm colaborado para o aparecimento de mauricinhos do crime. Apoiados numa manipulação do conceito de liberdade artística e de expressão, alguns programas de TV crescem à sombra da exploração das paixões humanas. Ao subestimar a influência perniciosa da violência ficcional, levam adolescentes ao delírio em shows de auditório que promovem uma grotesca sucessão de quadros desumanizadores e humilhantes. A guerra pela conquista de mercados passa por cima de quaisquer balizas éticas. Nos Estados Unidos, por exemplo, o marketing do entretenimento com conteúdo violento está apontando as baterias na direção do público infantil.
A psicoterapeuta observa que muitos adultos, hoje, são vítimas de um imenso vazio emocional. “E o que eles não sabem é que isso se deve à relação precária que vem desde o útero, passa pela amamentação e continua nas fases seguintes”, diz.
“Quando se está bem, a pessoa ama o tempo de silêncio e o estar só. E ama também quando este mesmo movimento de interiorização entra no ciclo de sair de si, encontrar o outro de si, dançar junto, amar. É quando ficar sozinho não é o mesmo que ficar solitário”, explica.
Na prática, o vazio emocional é uma depressão que vem de uma situação muito primitiva, um grande vazio interior.
As diferentes formas de compensação que a mídia e a sociedade oferecem não preenchem a sensação de solidão negra de não pertencer, de não fazer parte, de estarmos isolados. Esse é o caminho da desvitalização e da depressão. Somente quando assumimos que temos de encarar nosso vazio e nossa vida, sermos companheiros firmes, consistentes de nós mesmos encontraremos dentro de nós a força que precisamos para fazer este serviço.
Aí, sim, reconstruíremos a mãe que não tivemos porque ela não pode, não conseguiu ser. E o pai, a família que nos faltou. Nós temos que assumir esta responsabilidade de nos resgatar, de nos curar. Não adianta ficar culpando os outros, os pais. Isso aconteceu no passado. Agora você é adulto e isso significa parar de culpar o outro e cuidar e curar o bebê ferido que está aí dentro de você, carente e vulnerável.
Qual o papel da família neste contexto?
Maria de Melo - A família atual está em crise também. Os pais - ou por trabalharem demais ou por estarem, eles mesmos, pobres emocionalmente - não conseguem mais colocar limites saudáveis para a criança, ou os colocam de forma autoritária, violenta. No mais das vezes, não dão limites porque dá muito trabalho e não dá ibope. Ou seja, a mãe, que em geral, trabalha fora, quer ser “boazinha” e portanto é melhor não dizer não. O pai anda muito ausente, ocupando-se cada vez menos da família. Vão todos trabalhar e quem educa, afinal, são as mídias (televisão, rádio, internet). Os valores morais já não vêm da família e sim da mídia.
Diário - Quais as possíveis consequências disso?
Maria de Melo - A criança precisa da relação primeira da vida, com a mãe. Desta experiência ficam as sementes da relação a dois. A intimidade profunda, o contato primordial. Se o pai estiver presente e inteiro nesta fase inicial, gestação, amamentação, ele fica na função de proteger e dar campo para a díade mãe-bebe acontecer, e deixará também sua marca ao criar o campo família. Na fase seguinte, após a amamentação, a figura paterna é essencial para a criança entrar na dimensão da relação a três e demais pessoas.
Sem a relação íntima na família a criança não preenche sua necessidade profunda de intimidade, de contato. Torna-se uma pessoa superficial, incapaz de relações íntimas verdadeiras e profundas. Afinal, as diferentes mídias não oferecem a possibilidade de troca afetiva verdadeira.
É uma relação fria, de uma via só - a criança fica passiva, ali, ouve, sente, mas não tem respostas pessoais e únicas, que ela teria numa relação com a família. Não há trocas afetivas verdadeiras. Esta é, na essência, a causa do vazio interior. Uma família bem funcional e estruturada é a base de uma personalidade equilibrada, que permitirá chegar à maturidade afetiva, com a capacidade de amar, com o prazer de amar.
A sabedoria é o olhar inteligente que vê, entende, ama e transforma. Consciência é consciência de si mesmo, de quem - e do que - você é. De onde vem, para onde vai, da direção que está tomando, das escolhas, opções que está fazendo de fato, algo para além de si.
Você tem que viver isso, fazer você mesmo a experiência da intuição, da alma, de entrar em lugares dentro de você que nunca imaginou existir, acessar forças inimaginavelmente potentes. As pessoas hoje têm medo de si mesmas. Têm medo da vida interior.
É o vazio existencial, é a fome do divino, do espiritual.
Estas pessoas perderam o apetite em meio ao cardápio materialista e consumista que circula por aí. A agitação não mais é confundida com vibração de energia, vida, vitalidade. A vida fica sem sentido. Temos saudade da alma. Saudade de algo que, às vezes, nem se conhece, no nível superficial de nós. Mas lá, no fundo da alma, algo chama, chora, sedento, faminto. Muitas vezes tal angústia existencial é confundida com depressão, com aquelas feridas primitivas, buracos que precisam ser preenchidos.
Não é depressão. É fome de alma. É cansaço da futilidade total que toma conta da vida chamada moderna. O materialismo exacerbado tornou as pessoas seres sem alma. Estamos sedentos de contato verdadeiro consigo mesmo e com os outros, queremos saber (sentir o sabor) do que somos no mais profundo de nós, de nossa vida interior, da vida da alma.
O homem é mais do que organismo psicofísico; ele é pessoa espiritual.
O vazio existencial na vida contemporânea
O vazio existencial caracteriza-se por um estado de tédio e por uma incapacidade de pensar o futuro. A pessoa não possui mais motivação e ânimo para executar até mesmo tarefas habituais, entregando-se a um profundo abatimento diante da existência.
Esse estado freqüentemente é confundido com as depressões tradicionais, como a endógena, constituída pela deficiência de determinados neurotransmissores do sistema nervoso central, e com as depressões exógenas, provocadas por processos de luto, uma falha pessoal, um fracasso profissional etc. Nem mesmo podemos igualar este estado às depressões orgânicas, resultantes de lesões cerebrais, operações cirúrgicas de tumores, processos degenerativos do cérebro.
O vazio existencial, na conceituação do psiquiatra vienense Viktor Frankl, surge em decorrência de uma falta de metas e objetivos que valham a pena serem perseguidos durante a existência - ou seja, o indivíduo carece de um conteúdo profundo pelo qual viver. Tal estado de vazio, amplia a angústia resultante de uma tensão entre o que se é e o que se deveria ser, entre o lugar em que se está e a meta que deve ser alcançada.
A busca por um sentido é a motivação primária na vida de qualquer criatura. Sempre que essa vontade de sentido está soterrada por uma vida ilusória, mesmo nas condições de riqueza e bem estar material absolutos, a pessoa passa a sentir uma angústia existencial dentro de si.
Milhares de pessoas, vivendo existências superficiais e sem conteúdo, tentam “calar” a falta de sentido de suas vidas através de festas ruidosas, pelos divertimentos intermináveis, esportes radicais, os quais sempre deixam uma sensação de insatisfação e a necessidade de nova busca de entretenimento e emoções fortes. Noutras vezes, essa vontade de sentido que necessita ser preenchida é compensada pela vontade de poder, através da tentativa de domínio de outras pessoas, ou em uma de suas formas mais primitivas, a ganância de acumular dinheiro.
O vazio existencial pode ser percebido com clareza nos finais de semana, quando o corre-corre do trabalho e das tarefas cessa, e o vazio dentro de homens e mulheres se torna manifesto, denunciando a inexistência de um conteúdo proundo em suas vidas. Sábados e Domingos se tornam insuportáveis, já aque no lugar de metas e aspirações nobres e plenificadoras, existe apenas o imediatismo carregado de ansiedade, a busca tormentosa de se desfrutar prazerosamente o aqui e agoraa qualquer preço. Acaba por predominar em inúmeras criaturas, dessa forma, uma sensação de vácuo interno, como esclarece Joanna de Ângelis, em “Conflitos Existenciais”(2005).
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